
A violência doméstica nem sempre se manifesta apenas por meio de agressões físicas. Em alguns casos, o controle também pode ocorrer por meio da religião, da culpa, do medo e da autoridade espiritual. É o chamado abuso espiritual, fenômeno que ganhou destaque em uma reportagem do UOL sobre mulheres que sofreram violência dentro de relacionamentos inseridos em comunidades cristãs.
Um dos casos apresentados é o da psicóloga Luciana Ramalho, de 42 anos, que decidiu se divorciar depois de 17 anos de casamento. Em dezembro de 2017, durante o processo de rompimento, ela foi atingida por cinco disparos feitos pelo marido. Luciana sobreviveu ao ataque, mas o episódio marcou uma ruptura não apenas com o relacionamento, mas também com a comunidade religiosa na qual havia crescido.
Segundo o relato apresentado à reportagem, o caso ocorreu quando uma viatura policial passava pelo local. Um policial teria ouvido o primeiro disparo e parado para prestar socorro. O agressor também teria atirado contra os policiais, que reagiram. O homem morreu, e Luciana ficou viúva e responsável por dois adolescentes.
O caso de Luciana é apresentado como um exemplo extremo de uma forma de violência que pode começar de maneira menos evidente. De acordo com especialistas ouvidos pela reportagem, o abuso espiritual ocorre quando a religião, a autoridade de líderes ou o medo de consequências espirituais são utilizados para controlar, constranger ou limitar a autonomia de uma pessoa.
A advogada especialista em Direito de Família Luciane Lersch, coprodutora do documentário independente Abuso espiritual: Violência doméstica em lares cristãos, explica que esse mecanismo pode funcionar como uma etapa anterior a outras formas de violência.
A lógica seria a seguinte: antes de controlar o corpo, o dinheiro ou as decisões da mulher, o agressor pode tentar controlar a maneira como ela interpreta a própria realidade. Dessa forma, comportamentos abusivos podem ser apresentados como demonstrações de amor, correção, autoridade ou obrigação religiosa.
A reportagem também apresenta dados de uma pesquisa realizada em 2025 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha.
Segundo o levantamento citado pelo UOL, entre as mulheres que sofreram violência doméstica no país, 42,7% das que se identificam como evangélicas e 35% das católicas relataram agressões cometidas por companheiros ou ex-companheiros.
Os números, porém, não significam que a religião seja a causa da violência. A discussão levantada pela reportagem está relacionada principalmente à maneira como determinadas interpretações religiosas e comportamentos institucionais podem contribuir para o silêncio ou dificultar a busca por ajuda.
Após sobreviver ao ataque, Luciana afirma que encontrou pouco apoio dentro da comunidade religiosa. Segundo seu relato, algumas pessoas chegaram a interpretar a violência sofrida como uma espécie de sinal divino para que ela retornasse à igreja e cuidasse de sua vida espiritual.
A experiência teve impacto profundo na relação da psicóloga com a própria fé. Ela passou a questionar a imagem de Deus que havia recebido durante sua formação religiosa e precisou reconstruir sua relação espiritual depois do trauma.
O episódio também evidencia uma questão apontada por especialistas: quando a reconciliação é apresentada como única solução para um casamento em crise, a vítima pode ser pressionada a permanecer ou retornar a um ambiente perigoso.
Outro relato apresentado na reportagem é o de uma mulher identificada como Paula, de 33 anos, nome alterado para preservar sua identidade.
Ela afirma que sofreu violência física enquanto ainda estava profundamente inserida na comunidade religiosa que frequentava. Segundo seu relato, o controle sobre suas roupas era uma questão recorrente e também era reforçado dentro do ambiente da igreja.
As agressões teriam evoluído para episódios de violência física mais grave e ameaças com uma faca. Em uma das primeiras agressões, quando sua filha tinha apenas quatro meses, Paula afirma ter sido segurada pelos braços e agredida contra uma parede.
Ao procurar ajuda dentro da própria comunidade religiosa, ela relata ter recebido uma resposta que, em vez de reconhecer a gravidade da situação, teria tratado o comportamento agressivo como algo relativamente normal dentro de um casamento.
A consequência, segundo Paula, foi uma profunda confusão emocional. Ao ouvir que aquele tipo de comportamento seria comum entre homens, ela passou a questionar se realmente estava diante de uma situação de violência ou se deveria simplesmente ter mais paciência com o marido.
A violência não se limita ao aspecto físico ou psicológico. A reportagem também aborda o controle econômico como uma das barreiras enfrentadas por mulheres que tentam romper relacionamentos abusivos.
Paula relata que, para conseguir acelerar o divórcio e reduzir os riscos decorrentes das ameaças, abriu mão de bens e de parte da pensão destinada aos filhos. Segundo ela, o ex-companheiro teria ocultado bens e reduzido valores que deveriam ser pagos.
O episódio demonstra como a dependência financeira pode funcionar como instrumento de controle. Sem recursos próprios ou uma rede de apoio, a mulher pode encontrar dificuldades para deixar a residência, sustentar os filhos e reconstruir a própria vida.
A juíza Keyla Blank De Cnop, que estuda o tema, afirma que interpretações descontextualizadas de determinados ensinamentos religiosos podem contribuir para uma cultura de silêncio e tolerância diante da violência.
Segundo ela, algumas vítimas chegam ao Judiciário já carregando culpa pelo que aconteceu e utilizando expressões que colocam sobre si mesmas a responsabilidade pelo fracasso do relacionamento.
A magistrada também chama atenção para situações em que o casal chega junto à audiência e somente naquele momento a mulher passa a ocupar formalmente o lugar de vítima e o homem, o de acusado.
Para Keyla, é importante evitar que lideranças religiosas interfiram em processos criminais para desqualificar o relato das mulheres. Ela também defende uma discussão sobre mecanismos que possam responsabilizar situações de omissão institucional, especialmente quando houver obrigação legal de comunicação às autoridades.
A discussão também passa pelo campo teológico. A pastora anglicana e teóloga Cynthia Muniz questiona interpretações que transformam a submissão feminina em autorização para dominação.
Segundo ela, utilizar passagens bíblicas para justificar agressões ou controle contradiz a própria mensagem cristã apresentada nos textos bíblicos.
A teóloga também critica o uso isolado de determinadas passagens sobre casamento e divórcio. Para ela, os textos precisam ser compreendidos dentro de seus contextos históricos e não utilizados para manter uma mulher em uma situação de violência.
Para a advogada Luciane Lersch, o abuso espiritual pode ser especialmente perigoso porque interfere na percepção que a própria vítima tem da situação em que está vivendo.
Quando uma mulher passa a acreditar que questionar o marido é pecado, que deixar o casamento significa fracassar espiritualmente ou que precisa perdoar independentemente do risco, a religião pode acabar sendo utilizada pelo agressor como uma ferramenta adicional de controle.
A reportagem também cita a ausência de disciplinas específicas sobre violência doméstica em determinados processos de formação teológica como um dos pontos que merecem atenção.
O cineasta Leonardo Michelon, responsável pela produção do documentário citado na reportagem, afirma que um dos principais desafios da obra foi mostrar justamente esse tipo de controle, que muitas vezes não deixa marcas visíveis.
Depois da experiência traumática, Luciana passou a defender que mulheres em relacionamentos abusivos busquem construir condições para recuperar sua autonomia.
Entre as orientações apresentadas por ela estão ter uma reserva financeira, buscar qualificação profissional e aumentar gradualmente a independência econômica.
A ideia é criar condições para que a mulher possa tomar decisões com maior segurança caso precise deixar o relacionamento.
Luciana também ressignifica a ideia bíblica de “edificar a casa”. Para ela, proteger a si mesma e aos filhos e interromper o ciclo de violência também pode ser entendido como uma forma de construir e preservar o próprio lar.
A reportagem reforça que mulheres vítimas de violência podem buscar ajuda por meio dos canais oficiais.
O Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, funciona 24 horas por dia, oferece orientação e recebe denúncias. O serviço também atende pelo WhatsApp (61) 99656-5008.
Também existe o Disque 100, destinado a denúncias de violações de direitos humanos.
Em situações de risco, a vítima pode buscar medidas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da Penha.
O principal alerta deixado pelos relatos e especialistas é que violência não deve ser confundida com crise conjugal, disciplina, obrigação religiosa ou problema privado. Nenhuma interpretação de fé deve servir para justificar agressões, ameaças, controle ou impedir uma vítima de buscar proteção.
Fonte: UOL, reportagem de Ranieri Costa, publicada em 27 de agosto de 2026.