
O Brasil se despede de Geraldo Antônio de Carvalho, conhecido artisticamente como Rick, uma das vozes que ajudaram a marcar a história da música sertaneja nas últimas quatro décadas. O cantor, integrante da dupla Rick & Renner, morreu aos 59 anos após o acidente com um helicóptero na Serra de Santa Catarina. A confirmação da morte ocorreu nesta terça-feira (22), depois que as equipes de busca localizaram os destroços da aeronave. Não houve sobreviventes entre os ocupantes.
A morte encerra uma trajetória iniciada ainda na infância e que levou Rick dos bares e pequenas apresentações ao reconhecimento nacional. Ao lado de Renner, ele construiu uma das parcerias mais conhecidas do sertanejo brasileiro, especialmente durante a década de 1990, período em que músicas como “Ela é Demais”, “Cara Metade”, “Filha”, “Fim de Semana” e “Muleca” ganharam espaço nas rádios e no repertório popular.
Rick nasceu em 5 de dezembro de 1966, em Monte do Carmo, no Tocantins. Ainda criança, mudou-se com a família para Brasília. A relação com a música surgiu dentro de casa, influenciada principalmente pelo pai, Vitor Antônio, que compunha canções de Folia de Reis.
Ainda na infância, Rick começou a se apresentar ao lado da irmã, Dalva. Os dois formaram a dupla infantil Sereno & Serenata e chegaram a cantar em bares.
A atividade, porém, foi interrompida pelo pai, preocupado com o ambiente de algumas casas noturnas onde os filhos se apresentavam. Rick, no entanto, continuou buscando espaço na música e passou por outras formações antes de encontrar aquele que seria seu principal parceiro profissional.
Foi nesse período que Geraldo Antônio de Carvalho adotou o nome artístico Rick, inspirado em um dos integrantes do grupo Menudo.
A história de Rick & Renner começou de maneira pouco convencional. Em 1986, Rick telefonou para uma casa noturna com o objetivo de conseguir um equipamento emprestado. Do outro lado da linha estava Ivair dos Reis Gonçalves, que posteriormente adotaria o nome artístico Renner.
Rick ficou impressionado com a voz do então desconhecido cantor e decidiu conhecê-lo pessoalmente. O encontro deu origem a uma parceria que inicialmente foi construída longe dos grandes palcos.
Durante aproximadamente cinco anos, os dois cantaram em bares até chegarem ao primeiro trabalho gravado de forma independente.
Em 1989, lançaram o disco Atitudes, composto por músicas autorais. Naquela primeira fase, a configuração vocal ainda era diferente daquela que o público conheceria posteriormente: Renner fazia a primeira voz e Rick atuava na segunda.
O trabalho chamou a atenção de Zezé Di Camargo e Luciano, que ajudaram a aproximar a dupla de profissionais do mercado fonográfico.
O contato com o produtor Manuel Nenzinho Pinto abriu caminho para a gravação do primeiro álbum pela gravadora Chantecler.
Em 1992, chegou às lojas o disco Rick & Renner, que apresentou ao público músicas como “Você Decide”, “Olhando nos Teus Olhos” e “Mal de Amor”.
A dupla deixou Brasília e passou a viver em São Paulo, onde ampliou sua atuação profissional e iniciou uma sequência de lançamentos que prepararia o caminho para o grande salto de popularidade ocorrido na segunda metade dos anos 1990.
O grande momento comercial da dupla veio em 1998, com o álbum Mil Vezes Cantarei, o sexto disco de Rick & Renner.
Entre as faixas estava “Ela é Demais”, composição de Elias Muniz que se transformou em um dos maiores sucessos da carreira. A música permaneceu nas paradas por cerca de cinco meses consecutivos e ajudou a consolidar definitivamente os dois artistas no cenário nacional.
A década de 1990 foi especialmente importante para a dupla. O sertanejo passava por uma transformação, incorporando elementos urbanos e pop e alcançando um público cada vez maior.
Rick & Renner acompanharam esse movimento e construíram um repertório que combinava sertanejo romântico, baladas e letras de fácil identificação, estabelecendo uma relação duradoura com o público.
Entre os trabalhos lançados no período estão Volume 2, de 1994, Volume 3, de 1997, e Instante Mágico, de 1999, além dos discos que marcaram o início e a consolidação da dupla.
Embora tenha ficado conhecido nacionalmente como cantor, Rick também construiu uma trajetória expressiva como compositor.
Segundo levantamento citado pela Folha de S.Paulo, ele tinha 661 músicas registradas no Ecad. Parte desse repertório foi gravada por outros nomes importantes da música brasileira.
Entre suas composições estão “Só Dá Você na Minha Vida” e “Hoje Eu Sei”, gravadas por João Paulo & Daniel, além de “Página de Amigos”, conhecida na interpretação de Chitãozinho & Xororó.
Rick também participou da composição de “Agenda Rabiscada”, conhecida inicialmente na voz de Cleiton & Camargo e posteriormente gravada por Milionário & José Rico.
Seu trabalho como compositor também alcançou artistas de diferentes gerações, incluindo nomes como Luan Santana e Gusttavo Lima, mostrando que sua influência ultrapassou os discos da própria dupla.
O sucesso comercial de Rick & Renner foi expressivo.
Informações divulgadas sobre a trajetória da dupla apontam para mais de 10 milhões de CDs vendidos, além de milhões de reproduções nas plataformas digitais.
O repertório construído ao longo dos anos fez com que músicas lançadas décadas atrás continuassem presentes em rádios, shows, festas e plataformas de streaming.
Mais do que números, a dimensão da carreira pode ser observada pela permanência das canções no imaginário popular e pela capacidade da dupla de atravessar diferentes momentos da música sertaneja.
A história de Rick & Renner também foi marcada por períodos de afastamento.
A primeira separação ocorreu no início da década de 2010. Em 2011, os dois lançaram o álbum Happy End, associado ao encerramento daquela fase da parceria. No mesmo período, Rick iniciou um trabalho solo com o disco Pronto pra Te Amar.
A dupla voltou a trabalhar junta em 2012, quando lançou Inacreditável o Poder do Amor.
Em 2015, porém, ocorreu uma nova separação. O rompimento aconteceu após problemas envolvendo Renner e uma ocorrência de trânsito que ganhou repercussão nacional. Rick afirmou naquele momento que continuaria ajudando o parceiro, mas que também precisava cuidar da própria família e da própria vida.
Pouco depois, Rick lançou o álbum Foi Deus, reunindo músicas inéditas, regravações e participações especiais, com repertório que também explorava temas ligados à espiritualidade.
Em 2018, Rick & Renner voltaram a dividir os palcos. O reencontro foi anunciado publicamente e deu origem à turnê “Seguir em Frente”, retomando uma parceria que já havia atravessado mais de três décadas.
A partir daí, os dois voltaram a manter uma agenda de apresentações e passaram a celebrar a própria história.
Em 2026, a dupla chegava à marca de 40 anos desde o início da parceria. A comemoração incluía novos shows e apresentações programadas para diferentes cidades brasileiras. Na semana anterior à morte de Rick, os dois haviam se apresentado em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, e em Sorriso, no Mato Grosso.
Foi durante esse período de atividade profissional que aconteceu a tragédia.
Na tarde de segunda-feira (21), Rick estava a bordo de um helicóptero que havia decolado de Porto Belo, no litoral de Santa Catarina, com destino à região de São Joaquim.
A aeronave perdeu comunicação durante o trajeto. A Força Aérea Brasileira e o Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina iniciaram as buscas. Na operação, foram empregados meios especializados, incluindo aeronaves da FAB e equipes terrestres preparadas para atuar em uma região de difícil acesso.
As condições meteorológicas complicaram o trabalho das equipes. Inicialmente, as buscas foram concentradas em diferentes pontos da Serra Catarinense, incluindo a região de Urubici e áreas próximas a São Joaquim.
Na manhã desta terça-feira (22), os destroços do helicóptero foram encontrados. As autoridades confirmaram que não havia sobreviventes.
O acidente encerrou de maneira inesperada uma carreira que estava justamente entrando em um ano simbólico: quatro décadas de Rick & Renner.
Rick deixa a esposa, Geralda Carvalho, com quem mantinha uma relação de cerca de 30 anos, além de seis filhos e dois netos, segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo.
Sua trajetória também foi marcada por momentos em que falou sobre as dificuldades enfrentadas na carreira. Como um dos poucos artistas negros de grande projeção dentro do sertanejo de sua geração, Rick relatou experiências de racismo ao longo de sua caminhada profissional.
Ainda assim, sua história foi construída principalmente pela música: primeiro nos pequenos palcos, depois nas rádios, nos grandes shows, nos discos e, mais recentemente, nas plataformas digitais.
A morte de Rick encerra a trajetória de um artista que esteve presente em diferentes fases do sertanejo brasileiro.
Ele começou cantando ainda criança, passou por diferentes duplas, encontrou Renner em 1986, enfrentou anos de trabalho em bares, gravou um disco independente, chegou a uma grande gravadora, conquistou as paradas de sucesso, vendeu milhões de discos, escreveu músicas para outros artistas e viveu separações e reencontros com seu principal parceiro.
Ao longo desse caminho, Rick deixou muito mais do que uma coleção de sucessos. Deixou também um catálogo de centenas de composições e uma história profissional que atravessou quatro décadas.
A última viagem de Rick terminou na Serra Catarinense, mas sua trajetória permanece registrada nas músicas que ajudaram a construir a memória do sertanejo brasileiro.
A voz que durante décadas cantou histórias de amor, saudade, encontros e despedidas agora se transforma em memória, preservada nas canções que continuam sendo ouvidas por diferentes gerações.